O que o surf (me) faz
Estar em contacto com o mar ascende o espírito. A emoção de
apanhar uma onda é pura adrenalina e, quando nos colocamos de pé, parece magia.
É assim que posso descrever as minhas primeiras aulas de surf. Apesar de já ter
entrado várias vezes no mar para praticar este desporto, só agora é que decidi
que tenho de evoluir e aprender, no verdadeiro sentido da palavra, a surfar.
Há alguns meses atrás, comecei a ter aulas de natação para
estar mais à vontade dentro de água e treinar alguns pontos que considero
importantes na prática do surf. Sorte a minha, o meu professor também era
surfista e sabia exactamente o que eu precisava. Aos poucos fui ganhando
confiança no mar, mas sempre atenta. No entanto, só agora comecei a frequentar
as aulas de surf. Com três lições já consegui apanhar umas ondas e colocar-me de
pé, deixando a natureza fazer o resto. Resultado? Uma sensação de euforia e
felicidade ao mesmo tempo. Acho que não foi difícil ver o sorriso que tinha
reflectido na cara ao sair da prancha.
No meio de tanta água lembro-me que estou a viver uma
situação peculiar. Nas aulas de natação posso dizer que não há muita gente
jovem, pelo menos da minha idade, e nas aulas de surf a quantidade de crianças
é exorbitante. Conclusão: estou no meio de duas faixas etárias quase extremas,
aproveitando ao máximo e aprendendo tudo o que elas ainda me ensinam e podem
ensinar.
Sei que ainda me falta aprender muito, mas aí está o que se
chama perseverança. Não há nada na vida que seja fácil e surfar também não é. É
preciso cair muitas vezes, levar com ondas na cara, engolir bastante água,
remar como se não houvesse amanhã, estar exausto e, no fim, ter a capacidade de
voltar a subir em cima da prancha. “Desânimo é uma palavra que não pode constar
no dicionário de um surfista”, disse-me um companheiro de boas surfadas, -e
sustos – a quem devo todo o meu processo de iniciação nesta modalidade.
Sinto que mudei a postura no mar, o medo transformou-se em
tranquilidade, deixando o respeito por esta força da natureza predominar. Pode
até ser cliché, mas não posso deixar de referir que, de facto, o surf é uma
forma de estar. O mar tem a incrível capacidade de tranquilizar o ser humano.
Talvez pela sua imensidão, deixa qualquer um sentir-se insignificante. Em termos
práticos, se nós não estivermos bem connosco, não conseguimos fazer nada
correctamente. Não nos conseguimos concentrar nos estudos ou no trabalho, nem conseguimos
estar com a família e com os amigos, dando a atenção merecida aos mesmos. No
mar todos os problemas/preocupações desaparecem. Somos nós e a água naquele
infinito. O surf acaba por ser uma fuga ao dia-a-dia.
Claro está que estou ansiosa para que chegue o fim-de-semana
para poder apanhar umas ondas. Enquanto espero, vou praticando o take off no chão do quarto.
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