África do Sul. O surf como escapatória ao apartheid

“Naquela época praticamente só existiam surfistas brancos. Os negros que surfavam estavam a quebrar barreiras. Para a maioria, principalmente nas regiões zulus, as tradições e práticas culturais convenciam as pessoas a não entrar no mar. Tinham histórias de que os ancestrais viviam debaixo das ondas e que se alguém lá fosse, seria apanhado”, conta a sul-africana Sara Blecher, à revista “Hardcore”, responsável pelo filme “Otelo Burning”, que este ano teve estreia no Portuguese Surf Film Festival (PSFF), na Ericeira.
“É uma história de ficção, totalmente inspirada no fim da década de 80, regressando à altura em que Nelson Mandela está quase a sair da prisão. Há um miúdo que chama a atenção pela busca da liberdade e encontra no surf a melhor forma de expressão”, contou ao i Susana Andrade, organizadora do evento, na altura em que o filme esteve em exibição no PSFF
Era no surf que muitos sul-africanos se refugiavam para esquecer a violência que viviam em terra. “Durban é uma cidade desenhada em torno das ondas. Foram construídos muitos pontões, o que gerou revolução por parte dos surfistas. A comunidade pensava que iria estragar as ondas, mas bem pelo contrário. Acabou por melhorar o surf. Havia muitos conflitos entre os surfistas e os pescadores, pois estes não queria que os surfistas cortassem as linhas de pesca. Sihle Xaba foi fundamental para estabelecer o consenso entre os dois lados. Além de surfista, ele era – e ainda é – salva-vidas de Durban, conhecido e adorado por todos os pescadores e surfistas”, acrescentou a cineasta à revista.
“Ficaram muito felizes por verem a sua história ser contada. Para mim, o bom de “Otelo Burning” é que, desde que iniciámos as gravações, muitas crianças negras começaram a surfar. É como se o filme tivesse o enorme poder de mudar o que as pessoas entendem como possível, às vezes mais do que as leis”, disse, questionada sobre a reacção dos locais quando decidiu fazer o filme.

Blecher, porém, refere que embora “haja um investimento em surfistas negros", ainda se nota algum preconceito. “Quando há um surfista banco que é racista perto de um negro, provavelmente diz alguma coisa, como: ‘As praias só para brancos deixaram de existir com o fim do apartheid’”, rematou.

Política no surf Em 1969, Bay of Plenty estava repleta de gente para ver o primeiro campeonato na África do Sul – o Durban 500, que mais tarde mudou o nome para Gunston 500. Eram os anos do apartheid e na praia de branco o negro não tinha direito a entrar. Em 1972, o havaiano Eddie Aikau foi impedido de participar na prova, devido à cor da sua pele. Ernie Tomson, organizador do evento, tomou controlo da situação e o big rider acabou por competir. O acontecimento não agradou outros surfistas profissionais da altura, como Martin Potter, Tom Carroll e Tom Curren, que, nos anos 90, recusaram competir neste evento.

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