Surf. Quando o mar toma o lugar das ruas e dá aos jovens um sentido de pertença
O
documentário “Kushay’Igagasi”, que esteve na segunda edição do
Portuguese Surf Film Festival, em 2013, levou-nos a querer saber mais
sobre estes jovens que vivem nas ruas de Durban mas que só andam com a
prancha de surf debaixo dos pés
“Enquanto
miúdo, é muito difícil viver nas ruas. Enfrentamos muitas coisas
diferentes, como lutas, pessoas a magoarem-te, a querem mesmo matar-te.
Passas fome, não tens dinheiro, cheiras mal”, diz um dos jovens com
conhecimento de causa. Após termos visto documentário “Kushay’Igagasi” –
que em 2012 deu nome a campeonato de surf local – quisemos falar com
Tom Hewitt, responsável por, através do surf, dar rumo à vida dos jovens
que vivem nas ruas de Durban.
Inseridos na comunidade surfista, hoje são o centro das atenções e todos querem ouvir as suas histórias. “Quando surfas sentes-te confortável, livre. Lutas contra a água, cais, levantas-te e tens outra oportunidade para apanhar a onda”, disse Lucky, de 23 anos, um dos fenómenos do surf sul-africano, enquanto outro referiu que foram “os brancos” que lhe deram vontade de entrar dentro de água.
“Nasci na Inglaterra e voltei a nascer em Durban”, disse ao i Tom , surfista há mais de 27 anos. O primeiro contacto com crianças de rua foi em Maputo e em Moçambique, durante a guerra civil, em 1992, enquanto membro da equipa da “Peace and Human Rights”. “Teve um efeito muito forte em mim.” Quando deixou Moçambique e mudou-se para a África do Sul percebeu que estava no local certo para continuar o trabalho. “Sempre gostei do oceano. É para onde vou para me perder e sentir-me livre. No início, não queria misturar o surf com o trabalho que estava a desenvolver com as crianças. Mas eles imploraram-me que lhes ensinasse a surfar. Foi então que percebi que podia usar isto para os ajudar a sair das ruas”, contou. Foi quando em 2004 nasceu o Umthombo Street Children, uma organização fundada em conjunto com a sua mulher, Bulelwa “Mandi”, que conta actualmente com uma equipa de surfistas e alguns embaixadores. “Estão a mudar a perspectiva e a maneira como a sociedade trata as crianças da rua. São surfistas de topo e usam a modalidade como parte de estratégia para ajudar outros.”
Ntando Msibi é outra jovem promessa do surf. Com apenas 16 anos já treina para ser “pro”. “Está a sair-se muito bem nas competições, mas não estamos a treiná-los para serem ‘pros’. Preferimos chamá-los à realidade, ajudando-os a descobrir a sua vocação… muitas vezes acabam por se tornar nadadores-salvadores, instrutores de surf ou mesmo por encontrar um trabalho em restaurantes”, explicou Hewiit. “O meu sonho é poder tomar conta de mim, arranjar um trabalho e continuar a surfar. Tornar-me numa pessoa melhor para mim e para os outros”, afirmou Andile Zulo de 20 anos e “surfista de rua”. “Surfar tem um valor terapêutico intrínseco, é um vício saudável que pode substituir os maus vícios. Estes miúdos andavam a cheirar cola para se drogarem. Com o surf deixaram essa vida para trás”, frisou Tom.
Questionado sobre um episódio marcante, o surfista britânico recorda o jovem Thulani. “Era um bom surfista e um pouco mais velho que os outros. Treinei-o para fazer parte da equipa do Umthombo. Um dia, à noite, uma criança foi atacada na rua e ele acabou por envolver-se para defendê-la… foi esfaqueado até à morte. Perdemos um irmão surfista e uma óptima pessoa”, lamentou.
Kushay’Igagasi O trabalho desenvolvido no Umthombo ganhou proporções e, no ano passado, o documentário sobre a organização esteve presente na segunda edição do Portuguese Surf Fim Festival (PSFF), na Ericeira, vencendo o prémio de melhor curta-metragem do evento. “Não se trata apenas de miúdos dentro de água. Eles são mesmo bons surfistas”, conclui Tom Hewitt.
Inseridos na comunidade surfista, hoje são o centro das atenções e todos querem ouvir as suas histórias. “Quando surfas sentes-te confortável, livre. Lutas contra a água, cais, levantas-te e tens outra oportunidade para apanhar a onda”, disse Lucky, de 23 anos, um dos fenómenos do surf sul-africano, enquanto outro referiu que foram “os brancos” que lhe deram vontade de entrar dentro de água.
“Nasci na Inglaterra e voltei a nascer em Durban”, disse ao i Tom , surfista há mais de 27 anos. O primeiro contacto com crianças de rua foi em Maputo e em Moçambique, durante a guerra civil, em 1992, enquanto membro da equipa da “Peace and Human Rights”. “Teve um efeito muito forte em mim.” Quando deixou Moçambique e mudou-se para a África do Sul percebeu que estava no local certo para continuar o trabalho. “Sempre gostei do oceano. É para onde vou para me perder e sentir-me livre. No início, não queria misturar o surf com o trabalho que estava a desenvolver com as crianças. Mas eles imploraram-me que lhes ensinasse a surfar. Foi então que percebi que podia usar isto para os ajudar a sair das ruas”, contou. Foi quando em 2004 nasceu o Umthombo Street Children, uma organização fundada em conjunto com a sua mulher, Bulelwa “Mandi”, que conta actualmente com uma equipa de surfistas e alguns embaixadores. “Estão a mudar a perspectiva e a maneira como a sociedade trata as crianças da rua. São surfistas de topo e usam a modalidade como parte de estratégia para ajudar outros.”
Ntando Msibi é outra jovem promessa do surf. Com apenas 16 anos já treina para ser “pro”. “Está a sair-se muito bem nas competições, mas não estamos a treiná-los para serem ‘pros’. Preferimos chamá-los à realidade, ajudando-os a descobrir a sua vocação… muitas vezes acabam por se tornar nadadores-salvadores, instrutores de surf ou mesmo por encontrar um trabalho em restaurantes”, explicou Hewiit. “O meu sonho é poder tomar conta de mim, arranjar um trabalho e continuar a surfar. Tornar-me numa pessoa melhor para mim e para os outros”, afirmou Andile Zulo de 20 anos e “surfista de rua”. “Surfar tem um valor terapêutico intrínseco, é um vício saudável que pode substituir os maus vícios. Estes miúdos andavam a cheirar cola para se drogarem. Com o surf deixaram essa vida para trás”, frisou Tom.
Questionado sobre um episódio marcante, o surfista britânico recorda o jovem Thulani. “Era um bom surfista e um pouco mais velho que os outros. Treinei-o para fazer parte da equipa do Umthombo. Um dia, à noite, uma criança foi atacada na rua e ele acabou por envolver-se para defendê-la… foi esfaqueado até à morte. Perdemos um irmão surfista e uma óptima pessoa”, lamentou.
Kushay’Igagasi O trabalho desenvolvido no Umthombo ganhou proporções e, no ano passado, o documentário sobre a organização esteve presente na segunda edição do Portuguese Surf Fim Festival (PSFF), na Ericeira, vencendo o prémio de melhor curta-metragem do evento. “Não se trata apenas de miúdos dentro de água. Eles são mesmo bons surfistas”, conclui Tom Hewitt.
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