Sagres Surf Culture. A arte de surfar com palavras
Não há nada melhor que colocar a massa cinzenta a pensar. E foi isso que fizemos no passado fim-de-semana durante o Sagres Surf Culture, que decorreu no local que o nome indica. Já na 3ª edição, o conceito é simples: colocar a arte e o surf lado a lado.
João Rei é o responsável pelo evento que todos os anos reúne fotógrafos, ilustradores, pintores, cineastas, escultores e escritores na ponta do país. O que têm em comum? partilham a arte de surfar.
Nuno Jonet, Gemeniano Cruz, Gonçalo Cadilhe, Gonçalo Osório, Joana Vasconcelos, João Neto, João Parrinha e Xandi Kreuzeder, Frankie Chavez, Pedro e Mário Patrocínio, Sérgio Fernandes, Sérgio Rosário, Pedro Falcão e José Antunes foram os protagonistas deste ano. “É a celebração da cultura do surf, e já se tornou num marco, e numa marca obrigatória para quem se interessa por este estilo de vida além das licras e da competição.”
Aqui o lugar pertence a todos. Surfistas e não surfistas. O que conta é a partilha de experiências e o convívio entre os artistas e o público que, ao que tudo indica, tem vindo a aumentar de ano para ano. Joana Vasconcelos (não, não é a mesma Joana Vasconcelos, mas esta tem muito que se lhe diga) foi a primeira a apresentar-se. Responsável pela marca “Mar Dentro”, o trabalho nasceu na garagem onde permanece até hoje. “Usamos o cérebro e as nossas mãos” e é Joana quem “põe a mão na massa.” Aqui o que conta é a tradição e é essa a base do seu trabalho. No “Mar Dentro” há capas de pranchas, carteiras, camisolas… e tudo isto feito à mão com restos de tecido das (poucas) fábricas de têxtil que ainda existem no nosso país. “É tudo português”, garantiu, acrescentando que não querem ser uma empresa com quantidade, mas sim com qualidade. Convenceu-nos.
“Sou surfista e mau surfista há tantos anos….”. Aqui está José Antunes. Já cativou a audiência. Até aos 12 anos foi pastor em Oleiros, uma vila do concelho de Castelo Branco. Numa entrevista ao i, disse que “a infância marca a vida em adultos”. Quase por ironia do destino (ou não) hoje Zé optou por continuar a viver da terra. Professor de horticultura e trabalhos manuais, a vida obrigou-o a reinventar-se. Completamente autodidacta, começou por fazer brinquedos em madeira para os filhos. Daí para as pranchas foi um pequeno passo. Zé não se considera shaper e põe as mãos à cabeça quando os entendidos na matéria olham para as suas pranchas. Não está nem aí, pois “faz pranchas para surfar.” A sua sala é a carpintaria, feita por si, e a luz é a natural, que entra pela clarabóia. A madeira é apanhada pelo próprio e cresce toda em território português. O que sobra é aproveitado para fazer as quilhas. Com a sustentabilidade e ecologia em mente, depois de o trabalho estar feito, o surfista faz questão de replantar as árvores (por cada árvore apanhada planta 20).
A vida é passada na quinta entre Peniche e Óbidos, onde mantém a tradição de criança. É aqui também que a Yoni Surfboards (nome da sua marca) abre as portas a quem quiser experimentar fazer uma prancha de madeira. “Só têm de pagar alimentação. A prancha que fazem é para ficarem com ela.”
E porque estamos no tema ecologia e sustentabilidade, Skeleton Sea, de João Parrinha e Xandi Kreuzeder, foi a seguinte. As suas esculturas, feitas do lixo que recolhem na praia, são impressionantes. Mais impressionante ainda é vermos (num vídeo de apresentação) o que andamos a fazer aos oceanos. O desfio foi lançado. Para o ano, quando regressarmos a Sagres, iremos recolher o lixo das praias que estão aparentemente limpas. “Ficavam admirados”, garantiu João Parrinha.
Já a fazer a digestão do almoço, são Frankie Chavez, Pedro Falcão, Gonçalo Cadilhe, Nuno Jonet e os irmãos Patrocínio que “sobem ao pódio”. Não conseguimos assistir aos três primeiros, mas sabemos que têm o seu dom e conhecemos os seus trabalhos. É a vez de Jonet. O homem que dá voz aos campeonatos de surf e o primeiro português a entrar com essa função na Association of Surfing Professionals (ASP) esteve presente no Sagres Surf Culture. Ouvi-lo faz-nos viajar num tempo em que nem existíamos. “É uma história de vida”, como diria (e bem) a minha editora de surf. O paralelismo do passado com o presente e com aquilo que pode vir a ser o futuro da modalidade assusta. Ao mesmo tempo que se quer desenvolver, virando o desporto para as massas (o crowd começa a ser cada vez mais e as escolas de surf são mais que as mães. Como disse uma vez Júlio Adler: “no Brasil, qualquer otário chega na praia, põe a prancha na areia e diz que tem uma escola de surf”. E em Portugal? Como funciona isso?), não se quer perder a sua essência. Será isto possível? Ao que tudo indica, estamos perto de descobrir. Nuno Jonet diz que ainda vamos passar pela criação de piscina de ondas…
Entrando em bicos de pés, eis que surgem Pedro e Mário Patrocínio. “Dois irmãos portugueses que entraram na maior e mais perigosa favela do Rio de Janeiro”, o Complexo do Alemão. Como se isso não bastasse, ainda deram um salto a Luanda, onde filmaram o “I Love Kuduro”. Ambos confessam que as missões não foram fáceis, mas "acreditar" foi palavra de ordem.
Já com uma noite de descanso, depois do concerto de Frankie Chavez, a manhã foi passada no jardim do hotel com vista sobre o mar. Mais artistas se deram a conhecer, como João Neto, Gemeniano Cruz, Gonçalo Osório, Sérgio Fernandes e Sérgio Rosário. É neste espaço que termina o Sagres Surf Cultura e é aqui que começa a reflexão.
Muitos destes artistas foram aprendendo com o que tinham, tornando-se autodidactas. Outros especializaram-se, com o objectivo de aperfeiçoaram a sua técnica. Filho de pescador, o mar para Gemeniano é a sua casa. Sérgio Fernandes chegou à conclusão que não consegue desenhar se não surfar e vice-versa...Ao ouvirmos as suas histórias e depois de convivermos com alguns destes artistas, que ao longo dos tempos se foram reinventando, adaptando-se às necessidades, é impossível não pensar o que queremos nós fazer da vida. “Se a vida te dá limões, fazes uma limonada.” Para já uma coisa é certa. É preciso surfar.

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