Meir. "Desde que me tornei Baal Teshuva o meu surf melhorou"

"Enquanto o mar e as ondas continuarem a fascinar-me, vou continuar a surfar...ao mesmo tempo que estudo a Bíblia." As palavras são de Meir, um judeu ultra-ortodoxo que encontrou a fé no surf ou o surf na fé. Quem nos apresenta Meir é Gai Shtienberg, que publica o seu trabalho fotográfico no site The Inertia. O fotógrafo israelita de 30 anos não esconde o fascínio pela sua cultura, sendo o próprio estranho à mesma.

A curiosidade levou-o a Meir. "Tive a ideia de contar a história depois de ver um projecto de um fotógrafo australiano sobre surfistas na Faixa de Gaza. Nessa altura estava a pensar fazer um documentário sobre judaísmo ortodoxo, mas depois das filmagens aquilo começou a aborrecer-me", confessa. "Entre o meu projecto inacabado e o do fotógrafo, tive uma ideia para um novo documentário", explica-nos por email. Surfista desde os 14 anos, Gai sabia exactamente o que queria. "Comecei a falar com uns amigos e a perguntar-lhes se sabiam ou conheciam este tipo de surfistas. Acabei com dois números de telefone", conta.

Meir usa as vestimentas características de quem segue a religião, mas nem sempre foi assim. Nascido em Israel, começou com nove anos a andar de skate e com 12 a família mudou-se para perto do mar. "Começar a surfar nessa altura foi uma coisa que aconteceu naturalmente. Desde então nunca mais parei", confessa-nos hoje, com 34 anos. Criado como uma criança secular e até "um pouco rebelde", aos 21 anos o surfista judaico saiu pelo mundo à procura de ondas. Nas Filipinas conheceu a mulher, Nava, e garante que "foi amor à primeira vista". Um ano depois casam-se e convertem-se à religião. "Não ando a espalhar entre toda a gente que sou surfista, apenas os amigos mais próximos sabem. Se tiverem problemas, que aprendam a lidar com isso", diz-nos, sem papas na língua. Partilhar a paixão com os demais poderia ser problemático, pois para quem não conhece ou pratica a modalidade poderá parecer pecado. "Raparigas de biquínis, festas e drogas. As pessoas que são criadas no meio ortodoxo não acham possível separar os dois conceitos", justifica quando confrontado com a razão pela qual mantém segredo. Se analisarmos a história do surf e a sua evolução, razões não faltam para que seja este o pensamento. Contudo, "não há nada na Bíblia que diga que é proibido fazer exercício físico", bem pelo contrário. "É uma bênção estar em forma e cuidarmos do corpo", garante.

Há quem diga que é a fé que faz mover o homem. Meir concorda e revela que foi "uma força maior" que o fez abraçar a religião. "Cheguei a um ponto na minha vida em que senti que tinha tudo mas não estava preenchido. Sentia-me vazio por dentro. Um amigo meu tinha acabado de se converter ao judaísmo e abriu--me os olhos para o que está escrito no Torá", explica. "Desde que me tornei Baal Teshuva [converter-se à religião], o meu surf melhorou bastante."

Pai de seis filhos, nem sempre arranja tempo e condições para surfar. "Em Israel, além de as ondas serem pequenas, há muitos surfistas e o crowd [número de surfistas na água] é bastante." Apesar de as melhores ondas se encontrarem em Ashdod (a cerca de 40 quilómetros de Telavive), Meir costuma surfar perto da sua terra natal, em Rishon-Lezion, mas garante-nos que "as melhores ondas são nalguns secret spots na parte norte da costa".

LIFESTYLE ULTRA-ORTODOXO Durante seis longos meses Gai, "um rapaz de rastas e nada religioso", como se descreve, viveu inserido na comunidade ultra-ortodoxa, aprendendo hábitos e costumes. Shtienberg fala de Meir como "uma criatura fora do normal". "Os judeus ultra-ortodoxos são uma comunidade muito fechada, sem conhecimento do mundo exterior. Quase não vêem televisão, não usam internet, muito menos telemóveis. A maioria tem de seis a 11 filhos, por isso não podem gastar dinheiro em luxos. Sentem-se satisfeitos com pouco e passam o tempo a estudar a Bíblia", diz. O surfista confessa que andar no meio deles foi "um pouco estranho", pois não paravam de o observar. "Alguns nunca tinham visto uma criatura como eu", conclui.

Nascido e criado em Israel, Gai vive perto de Telavive - "cidade que nunca dorme" - e desmistifica o que passa na televisão. "O que vemos não corresponde à realidade e, como deves saber, o drama e a guerra é que vendem. A maioria das imagens que mostram passa-se na fronteira. Israel é muito parecido com o resto da Europa. Boas praias, miúdas giras e algumas das melhores festas do mundo", garante, acrescentando que, apesar de não haver "boas ondas", existe uma "grande

Créditos: Gai Shtienberg

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