Tiago Pires. "Ainda está para acontecer aquele resultado que me vai dar muita confiança"

Após um ano complicado, em que afirmou estar habituado ao stresse de fim de época, Tiago "Saca" Pires regressou ao circuito mundial de surf mais forte do que nunca. Não pelos resultados (tem três 13.o lugares, um 25.o), mas pela postura que assumiu. Pouco antes da 6.a etapa do World Championship Tour, que acontece já no dia 10 de Julho, em Jeffreys Bay, estivemos à conversa com o único surfista português no tour.

Já estás melhor da tua lesão?
Não vou dizer que estou a 100% e que não sinto nada, pois infelizmente isso ainda não acontece. Mas estou a sentir--me cada vez mais forte dentro de água. Uma coisa boa desta última vez que me magoei na Austrália [razão pela qual falhou a segunda etapa] é que desde muito cedo o movimento que me está a provocar dor não é o que faço no surf. Desta vez fiz uma hiperextensão e é aí que ainda sinto dor. Acaba por não afectar o meu surf, pois como vou em pé, com as pernas um pouco flectidas, não sinto dor. Mas a lesão ainda está um pouco na minha cabeça.

Foi um fim de época complicado, sem teres a certeza se ias ou não voltar a competir. O que te passou pela cabeça?
Várias coisas, mas sabia que tinha boas hipóteses de ter um injury wildcard da ASP (Association of Surfing Professionals). Apesar de nunca me ter magoado desta maneira, conheci alguns casos que tinham recebido convites nos anos seguintes. Sabia que o meu caso era forte e que as hipóteses de ter um para continuar eram altas. Mantive-me ocupado, a tratar da lesão e com vontade de voltar o mais cedo possível... talvez um bocado pela insegurança que tinha em relação ao futuro. Queria voltar o quanto antes e fazer provas para melhorar os pontos e isso talvez me tenha prejudicado, porque tentei surfar muito cedo e acabei por não recuperar totalmente. Quando voltei à água, com ordem médica, senti-me bastante bem.

E aqui estás, de regresso...
Está a ser mais morno do que estava à espera. Pensei que neste momento já poderia ter tido um resultado mais expressivo, mas a realidade é que fiquei muito tempo parado e fisicamente bastante condicionado. Mentalmente enferrujei um pouco e este ano houve baterias em que me senti algo lento na tomada de decisão e acabei por perder alguns heats, que me magoaram um pouco. Isso ainda não me deixou passar à quarta ronda. Continuo com boas expectativas e tenho vindo a progredir. Ainda está para acontecer aquele resultado que me vai dar muita confiança, que me pôr-me mais para cima. Com a experiência que tenho, posso estar neste momento num lugar inferior no ranking, pois sei que tudo pode mudar muito rapidamente.

Sentes-te nervoso?
Já não. Não como antes, em que não tínhamos resultados e começávamos a ficar nervosos com receio de sair no final do ano. Estou mais confiante para que um bom resultado aconteça em qualquer prova, nem que seja na penúltima ou na última, para conseguir a minha manutenção. Tem sido um ano diferente, um ano em que ainda penso um bocado no joelho, mas são ossos do ofício.

Alguma vez pensaste reformar-te?
Em Portugal ninguém se pode reformar [risos]. Não, não pensei nisso. Acho que aquilo que faço é o que me dá mais prazer e não me vejo a fazer outra coisa. Tenho um contrato que me deixa mais alguns anos para poder pensar no assunto. Neste momento quero competir e alcançar alguns objectivos e depois logo se vê... tenho tempo para pensar nisso.

Numa entrevista ao i disseste que na altura em que entraste para o tour algumas expectativas foram defraudadas. A que te estavas a referir?
Bolas [risos]. Acho que antes de nos qualificarmos e estarmos no WCT temos um bocado a ideia de que vamos entrar num grupo muito restrito de pessoas que têm uma vida de sonho, que só surfam ondas boas e que é tudo um mar de rosas. Claro que é competição e há sempre atletas iluminados, mas pensei que era um circuito onde se garantiam as tais ondas perfeitas. Isso acaba por não acontecer tanto como gostaríamos. Acabo por competir várias vezes em ondas, não digo medíocres mas medianas num circuito que se intitula "dream tour". Claro que há campeonatos, como no Brasil, em que não se espera apanhar ondas perfeitas, mas mesmo em sítios como as Fiji ou o Taiti já aconteceu apanharmos más condições. Não se pode querer mudar a natureza. Temos um período de espera de 12 dias e às vezes as ondas não aparecem.

Por falar em Brasil, há quem defenda que a etapa deveria ser repensada.
No momento em que a etapa voltou para o Brasil e foi para o Rio de Janeiro achei que não fazia sentido. Hoje acho que faz. O Brasil é um país um bocado ao estilo de Portugal. As pessoas vibram muito com o desporto, nomeadamente o surf, que é bem desenvolvido. Acho que toda a envolvência em torno do campeonato, o público e os fãs dão-nos muita força. Acaba por ser uma recompensa por desporto ter sido tão bem desenvolvido e acolhido. É quase vital ter uma prova em Portugal e no Brasil.

A ZoSea já assumiu as rédeas da ASP. O que é que isso significou em concreto para os atletas?
Não há muitas diferenças. Penso que a ASP melhorou um pouco em termos de estrutura e equipa. O que sinto é que estamos numa era mais comercial e antes não se sentia este estilo de marketing, de trabalho de imagem à volta da organização. As pessoas que estão à frente da ASP são pessoas de bem e acho que vão querer promover e desenvolver o desporto e acredito que daqui a uns anos o surf vai ser muito maior do que é.

Isso não faz com que o surf perca a essência de que muitos falam? [Steve Shearer, jornalista australiano, disse que é um erro tornar o surf profissional um desporto de massas].
Provavelmente perde-se um bocado, mas os surfistas dos anos 70 e 80 também diriam que na década de 90 e 2000 o surf perdeu bastante. Vai haver sempre pessoas inconformadas, que não suportam bem a mudança, e isto é uma mudança. A ASP neste momento é gerida por americanos quando antes era gerida por australianos...Só isso já diz um pouco, pois são pessoas diferentes. Sim, poderá estar a ficar com uma imagem mais comercial. É uma questão de pararmos para perceber o que queremos, se é um desporto que vai estagnar e ser uma tribo que viaja de um lado para o outro e onde fazemos carreira durante 10, 15 anos no máximo e não temos estabilidade no tempo de vida que nos resta, ou se queremos uma coisa com maior dimensão, onde vamos ter mais dinheiro, talvez viver mais confortavelmente e ter direito a um fundo de pensão. São aspectos que a ASP está a trabalhar e que também existe noutros desportos. Há coisas boas e más, mas acho que o saldo final é positivo.

E nos critérios de julgamento?
[Risos.] Os critérios de julgamento vão ser sempre uma guerra, uma grande batalha e uma polémica. Não sou apologista da palavra 'roubo' e da frase 'fui mal julgado'. Acho que fazemos muitos heats durante o ano, uns vão para o nosso lado, outros para o outro. É tudo muito subjectivo, uma questão de apreciação. Tudo o que dependa de um painel de juízes vai ser polémico. Até no futebol, que é um desporto básico, há polémica. É isso que alimenta o mercado. No surf isso também é forte. Se um dia o desporto for assim tão grande, vai alimentar muitos jornais e revistas, o que talvez não seja assim tão mau.

Quais são as tuas perspectivas para o resto da época?
Tentar furar a barreira da terceira ronda, que neste momento parece estar a ganhar força. Acredito que possa ser um ano bastante bom. Sinto-me mais calmo que no passado e espero que isso jogue a meu favor. Gostaria muito de ter uma boa prestação em Peniche, o que ainda não aconteceu e gostaria de o fazer antes de me "reformar". Vamos ver como corre. Estou a gostar bastante do meu surf. Acho que ainda tenho muitos tiros para dar este ano.

Após dois anos de ausência, J-Bay, na África do Sul, voltou a estar no calendário. Preparado?
Não tenho grande maneira de me preparar. É uma onda que já surfei muitas vezes e já consegui apanhar o estilo de mar. Sei o que tem para oferecer e o que tenho de fazer para ganhar pontos. É muito parecida com a onda onde cresci a surfar, embora mais rápida. Mas antes vou competir no evento prime do circuito mundial de qualificação, em Durban, [Mr Price Pro Ballito] e isso vai ser bom para começar a aquecer os motores. É estar o mais confiante possível, alegre e deixar fluir.



Entrevista publicada no jornal i 

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