Surfar e viver com Bruno Garrudo. Keep it simple
A última
vez que estivemos com Bruno Garrudo – Stuck, como lhe chamam –, no Sagres Surf
Culture, ele já nos tinha alertado que vinha aí mais uma obra de arte. Artista
por natureza, não consegue ficar quieto. Por essa razão é que, muito
provavelmente, conseguimos ter acesso a “Deambulações”, um livro que retrata
algumas de muitas viagens feitas pelo autor, e que teve estreia mundial no dia
30 de Outubro, no Surf At Lisbon (SAL), no cinema São Jorge, em Lisboa.
Fotógrafo, pintor, escritor, e tudo mais que se possa
imaginar. Não vale é deixar a vida passar entre os dedos. Há muito que Bruno se
entregou ao acaso, fazendo o que mais o deixa feliz: surfar. Sendo o mar a sua
casa, a nossa conversa não poderia ter acontecido noutro lugar. O artista
escolhe e nós aceitamos. “A ideia de fazer este livro surgiu há uns anos. Não
sei dizer especificamente quando. Já tinha viajado imenso, fotografado,
escrito. Aliás, comecei a fotografar e a escrever durante essas viagens”,
começou por referir, mas acredita que o clique aconteceu há uns anos, durante o
“Sipping Jetstreams”, de Taylor Steele. “Há uma imagem no filme que é
exactamente uma fotografia que eu tinha tirado antes de o filme ser lançado. A
cena passa-se em Cuba e já lá tinha estado a surfar numa altura em não andava
lá ninguém. Acho que foi aí que pensei pela primeira vez de uma forma mais
séria: ‘se este gajo é um dos mais conceituados realizadores de filmes de surf
no mundo e eu tenho esta imagem que é exactamente aquilo que ali está, porque
não transformar isto em algo?’ Acho que às tantas foi aí que nasceu.”
Mas a vida foi seguindo o seu rumo. “As viagens continuaram,
bem como a escrita, o surf e a fotografia. Indirectamente, ou inconscientemente
talvez, continuei a trabalhar para o projecto que estava meio adormecido.
Estava cá, mas nunca tive aquela postura de um jornalista que sai para
trabalhar e que tem de trazer resultados. Fui vivendo a minha vida e ao mesmo
tempo ia documentado.”
© Bruno Garrudo | STUCK photography
|
À medida que vamos conversando, as palavras vão entrando não
só na nossa cabeça, mas no nosso coração, ao som (que corre na imaginação) de
uma música de Emílio Santiago, intitulada “Verdade Chinesa”. Quando lhe
perguntamos (quase em tom de 'quero fazer o mesmo, apenas não sei como') do
que vive, a resposta é tão rápida quanto simples: “do ar.” “Sem ar não consigo
viver, mas consigo viver sem dinheiro.” De doidos para alguns, para outros o
desejo.
Entre as deambulações, só no ano passado é que Bruno se
agarrou à pré-produção do livro, e avançou sem apoio de qualquer editora. “É um
processo muito complicado, rejeitei trabalhar com editoras, pois recuso-me a
trabalhar com as condições que são propostas aos autores. Foi um processo
coordenado e gerido por mim. Felizmente tive a ajuda de um grupo pequeno de
pessoas que foram muito importantes”, frisou.
Sempre em viagem e sem nos dizer por onde andou, apenas que
“por lugares interessantes” e, como cita o prefácio de Gonçalo Cadilhe, andou
“nesse grão de areia perdido no infinito a que nós chamamos terra”, a ideia era
deixar os lugares comuns e ir em busca da essência. No livro isso está claro e
acreditamos que Bruno alcançou o que tanto desejava. Na apresentação, João
Valente, director da revista Surf Portugal, dizia que era o primeiro livro de
surf a sério, pois é o primeiro em que não se vê viva alma a surfar. Confusos? Imaginem o que está por trás da obra.
“Lugares como Austrália ou o Havai, até mesmo a Nova Zelândia,
são países que te trazem experiências tão ricas como estes países que
documentei, mas são formas de viver o surf diferentes. Os supracitados têm uma
cultura de surf muito vincada e não era isso que procurava. Aquilo que aqui
documento são ondas, ou mesmo países em que ninguém surfava e as relações
humanas. É muito difícil conseguires uma experiência desta natureza e é das
coisas mais fortes que podes viver…para quem aprecia realmente surfar e tudo o
que isso representa”, explicou-nos o autodidacta.
Entre orangotangos, aldeias palafíticas, crocodilos de água
salgada e as boleias nas carroças, são sete as histórias que podemos encontrar
nesta obra. “Tentei criar conteúdo coerente. São todos lugares distintos. Cada
história é ilustrada por imagens. Não consigo precisar a quantidade de viagens
que fiz porque algumas foram interrompidas e umas duraram mais que outras. As
viagens não foram planeadas… Claro que houve muita pesquisa mas as coisas foram
acontecendo”, explicou.
A prancha esteve sempre a seu lado. Por onde passava, sentia
os olhares. E sempre que surfava “no grande rio”, aproximava os mais curiosos.
“Eles pulavam e gritavam. Muitos disseram coisas que não entendi porque em
alguns locais por onde passei era difícil comunicar por palavras para teres um
diálogo, mas era sempre possível comunicar por gestos.” Questionado sobre se
ensinou alguns a surfar, Stuck prefere dizer que partilhou a sua experiência. Ao
contrário de muitos, optou por não deixar a prancha para os mais pequenos
brincarem, pois acredita que se o fizesse não iria trazer paz.
E o que te fascinou mais nestas viagens? “Essa é difícil. Se filtrar tudo até chegar ao que realmente é
importante, acho que é mesmo a essência e a simplicidade. Conseguires descartar
tudo o que é supérfluo e perceberes que quer seja na relação humana, quer na
experiência de surfar ou o que for na vida, não há nada como a simplicidade e
teres a possibilidade de viver experiências que nunca mais terás oportunidade
de repetir, porque alguns desses lugares já foram descobertos por quem não
interessa”, lamentou.
Natural do Ribatejo, criado nos arredores de Lisboa, mas feito
em África, talvez por isso sinta que o seu coração não pertence ao país de
Camões. “Sabes aquele tempo em que passamos dentro de água, que é o mais
importante, passei-o em África. A vida deu muitas voltas e acabei por crescer
no subúrbio de Lisboa e entretanto nunca tive oportunidade de conhecer África,
a não ser pelas narrativas de amigos e familiares. Não pude conhecer a terra
que o meu coração habita até começar a viajar”, recordou.
O surf começou cedo, numa altura em que ainda era considerado
marginal aos olhos da sociedade. “A primeira vez que vi o mar foi em 1975, na
Nazaré. Que agora está nas bocas do mundo. Naquela vila piscatória – onde as
mulheres ainda usavam sete saias – ninguém sabia o que era o surf. Aliás, nem a
minha família sabia. O surf em Portugal, nos anos 80, ou até mesmo ao virar
deste século, era desprezado. Achavam que era coisa de vagabundo. Mas era o que
queria fazer da vida e levou mais tempo do que gostaria.”
Embora tenha arranhado na competição, acabou por não seguir
esse caminho, mas confessa que se lhe tivessem dado a oportunidade, não diria
que não. “Eu só queria era surfar”. Quis a vida que além de surfista, fosse
artista. Parou de crescer aos 19 anos. Pelo menos é o que nos diz em tom de
brincadeira. “É a síndrome de Peter Pan”. “Acho que parei no tempo de certa
forma”, sublinhou. Mesmo não sendo verdade, pegou e hoje se lhe perguntamos a
idade, a resposta é a mesma: 19 e vamos na conversa.
“Go
confidently in the direction of your dreams. Live the life you’ve imagined” -
Thoreau
Enquanto conversamos, folheamos o livro (até a escrever este
texto paramos para fixar as imagens e palavras) e chama-nos a atenção uma frase um tanto
profunda: “Live the life you’ve imagined” e vives? “não vivo a vida que
imaginei, mas continuou a procurar e a viver nesse sentido. Não atingi a
plenitude. Vivo a vida que imaginei no sentido que faço o que gosto e isso é o
mais importante.” Resposta dada.
Após a apresentação do seu livro no Surf At Lisbon (SAL), está
na altura de fazer-se à estrada, onde fará uma digressão pelos países de língua
portuguesa, preparando-se ainda para contar muito mais das suas viagens, pois a
“cabeça não pára”. Sempre com a polaroid, a prancha debaixo do braço e a sede
insaciável de surfar.

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